“Mais populares que Jesus”

O comentário da imagem acima, me motivou a investigar um pouco mais a respeito da polêmica reflexão de John Lennon em 1966, onde ele citou os Beatles como sendo “mais populares que Jesus”. Consigo notar a ignorância por boa parte do público, principalmente se tratando de cristãos, que acreditam mesmo que o assassinato de John em 1980, foi por causa de uma frase mal interpretada que foi dita quase duas décadas antes. É como se a figura messiânica que eles acreditam fosse uma espécie de Deus vingativo, que não aceita afronta ou algo do tipo. Há pessoas que comemoram o fato de John ter sido assassinado, e por incrível que pareça, essas mesmas pessoas são as que vivem disseminando a ideologia da paz e do amor e afirmam que todos temos o livre arbítrio, tudo de acordo com os princípios do cristianismo. Chega a ser irônico isso.

Evening Standard, 4 de março de 1966.
• Créditos da foto: The Paul McCartney Project 

A jornalista que entrevistou Os Beatles, Maureen Cleave.
• Créditos da foto: Wikipédia 

Em março de 1966, o jornal britânico Evening Standard publicou uma série semanal intitulada “Como vive um Beatle?”. Os artigos foram escritos pela jornalista Maureen Cleave, que conhecia bem os Beatles e os entrevistava regularmente desde o começo da Beatlemania no Reino Unido. Ela realizou a entrevista em fevereiro daquele ano em Kenwood, a casa de John em Weybridge, Surrey. 
Ao longo da entrevista, John proferiu a seguinte frase:

“O cristianismo desaparecerá. Ele desaparecerá e encolherá. Não preciso discutir sobre isso; estou certo e serei provado que estou certo. Somos mais populares que Jesus agora; não sei o que desaparecerá primeiro – o rock 'n' roll ou o cristianismo. Jesus era bom, mas seus discípulos eram estúpidos e comuns. São eles distorcendo isso que estragam tudo para mim”.

A entrevista foi publicada em 4 de março sob o título secundário: “Em uma colina em Surrey... Um jovem, famoso, rico e esperando por algo”.

John Lennon em 1966.
• Créditos da foto: The Beatles Interviews Database

De acordo com Philip Norman, autor do livro John Lennon: A Vida, a reflexão de John sobre Jesus Cristo não veio do nada, como dava a entender a matéria. Ele menciona que Maureen diz em determinado momento que ele (John) está lendo “bastante sobre religião”, mas não chega a citar nenhum título. Philip conta que John estava profundamente absorvido na leitura de Passover Plot (O complô da Páscoa), de Hugh J. Schonfield, um dos livros mais vendidos naquela época. Schonfield defendia a tese controversa, que está presente no seu livro, de que Jesus era um homem mortal que planejou seus milagres de modo a confirmarem as profecias do Antigo Testamento, e encenou a própria crucificação, usando os discípulos como cúmplices involuntários. 

A capa do livro de Schonfield, Passover Plot, que até então não possui tradução em língua portuguesa.
• Créditos da foto: Wikipédia 

O autor, Hugh J. Schonfield.
• Créditos da foto: Shuttertock

Philip acredita que baseado na crença de Schonfield, John tinha a percepção deles (os discípulos de Jesus) como “obtusos”, o que fortalece o contexto no trecho da frase, onde John descreve que: “Jesus era bom, mas seus discípulos eram estúpidos e comuns. São eles distorcendo isso que estragam tudo para mim”. A sua afirmação é uma crítica à religião organizada, onde seus seguidores aplicam de forma distorcida a mensagem de amor e paz que, de acordo com o cristianismo, foi passada originalmente por Cristo.

Imagem ilustrativa. Pintura ‘A Santa Ceia’, de Leonardo da Vinci.
• Créditos da foto: BBC

Nesse contexto, podemos perceber que Maureen deveria ter entendido que até os entrevistados mais articulados podem sofrer divagações ou se perder em falsas conclusões, e que os repórteres parafraseiam ou fundem na maioria das vezes, as declarações sem ferir sua exatidão. Sabemos que a repórter não estava buscando causar uma espécie de sensacionalismo. E neste caso, ela compreendeu que era apenas um comportamento padrão do “John Lennon sendo John Lennon”.

Maureen Cleave.
• Créditos da foto: The Independent

Para a maioria dos britânicos, o cristianismo significava a Igreja Anglicana, uma instituição vista com cada vez menos seriedade por eles.
John enxergava o cristianismo cada vez mais em declínio na Inglaterra, em comparação a popularidade dos Beatles que só aumentava ao longo do tempo.
Para os próprios britânicos, o comentário de John foi bem pouco notável. E mesmo diante da mídia nacional, atenta a tudo o que era dito sobre os Beatles, nem mesmo o editoralista de grande circulação ou um colunista fizeram algum comentário ou sequer pareceu notá-lo.
Isso só prova que diante desse contexto, a sua fala, embora com um pingo de sarcasmo, tinha fundamento.

A beatlemania marcou a invasão britânica na década de 60.
• Créditos da foto: WhizzPast

Grafico que aponta o declínio da religião no Reino Unido, entre 1975 e 2025.
• Créditos da foto: Missão Esperança para a Europa

Quatro meses depois, o comentário de John ganhou notoriedade nos Estados Unidos quando foram publicadas na Datebook Magazine. O seu comentário parecia isolado na página da revista, com um trecho da frase propositalmente destacada de maneira tendenciosa, que dizia: “Não sei o que desaparecerá primeiro – o rock 'n' roll ou o cristianismo”. Houve reações de protestos e ameaças no país, principalmente em todo o Cinturão da Bíblia, no sul dos Estados Unidos. Algumas rádios pararam de tocar músicas dos Beatles, discos foram queimados em público, coletivas de imprensa foram canceladas e a KKK (Ku Klux Klan) fez protestos em shows.

A revista Datebook republicou a observação de John Lennon sobre Os Beatles serem “mais populares que Jesus Cristo”.
• Créditos da foto: The Beatles Bible

Protestos pela América, em resposta a declaração de John. No cartaz, é possível lê a mensagem, que diz: “Jesus morreu por você, John Lennon”.
• Créditos da foto: Ultimate Classic Rock

Mais tarde, por incentivo do empresário dos Beatles, Brian Epstein, John se desculpou em uma série de coletivas de imprensa, esclarecendo que não estava se comparando a Jesus Cristo. Ele explicou abertamente que a frase foi justamente um comentário sarcástico sobre o declínio da religião no Ocidente e uma comparação sobre a popularidade entre a igreja e a cultura pop na Inglaterra, sem a intenção de se comparar a Jesus como figura.

John após pedido formal de desculpas, em 16 de agosto de 1966.
• Créditos da foto: r/Beatles (Reddit)

O empresário dos Beatles, Brian Epstein.
• Créditos da foto: Britannica

Com relação as motivações por trás do seu assassinato em 8 de dezembro de 1980, as razões para este ato doentil são bastante confusas. O fato é que Mark Chapman é um doente mental. Nascido no Texas, ele era um nerd considerado arquetípico, obeso e sem distinção. Por essas características, sofria bullying na escola e passou a buscar uma espécie de refúgio num mundo imaginário que lhe dava afeto e sensação de poder e carência. Na adolescência começou a usar drogas, como o LSD e um tempo depois, passou por uma conversão cristã, se tornando devotado. Philip Norman cita que o principal consolo para a falta de alegria na vida de Mark, foi a música dos Beatles. 

Mark David Chapman.
• Créditos da foto: Veja SP

Mark se auto identificou com a imagem de Lennon, sendo um pacifista, ativista anti-guerra e defensor de várias causas. Logo, essa auto identificação se tornaria uma obsessão doentia. Como sendo cristão, Mark passou a abraçar os seus valores. O homicídio, de acordo com o próprio assassino, foi de certa forma motivado pela declaração de John sobre Jesus Cristo, bem como pelas letras de suas músicas em carreira solo, como “Imagine”, que ele considerou comunista e que nela, há uma trecho em que John canta sobre um mundo sem religião, o que enfureceu Mark, e “God”, na qual John afirma rejeição a figuras e conceitos considerados absolutos, citando Jesus Cristo entre eles. A obsessão por John era tamanha que em 1979, Mark se casou com uma nipo-americana vários anos mais velha.

• Créditos da foto: Monet

• Créditos da foto: Beatles Daily

Nesse período, em algum momento ele passou a ler o livro "O apanhador no campo de centeio", de J. D. Salinger, em que o personagem principal, chamado Holden Caulfield, é obcecado pela falsidade alheia. O personagem é descrito como um adolescente alienado e descontente que encontrava defeitos e hipocrisia em tudo o que se relacionava com o mundo. Motivado pela obsessão paralela ao personagem, Mark queria que seu nome ficasse registrado na história e achava que a ação bruta que tomaria mais a frente garantiria isso. Ele passou a acreditar que, dando fim a John, seria capaz de se destacar, entrando pra história.

O livro: O apanhador no campo de centeio, em seu idioma original.
• Créditos da foto: Wikipédia 

O autor do livro, J. D. Salinger.
• Créditos da foto: Amazon

Com essa extensa análise, podemos concluir que John Lennon não teve o cuidado necessário com a sua própria proteção, optando por viver uma vida rotineiramente normal, sem a presença de um segurança particular e que Mark Chapman possui um transtorno de personalidade, e marcado pela falta de um propósito ao longo dos primeiros 25 anos da sua vida, almejava estar no lugar de John Lennon.

8 de dezembro de 1980. Na foto, John Lennon ao centro da foto, autografando o disco Double Fantasy de Mark Chapman, que está ao lado direito. O autógrafo para o homem que o mataria naquela mesma noite.
© Foto: Paul Goresh

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